Uma nova rodada de pessimismo

Por Luiz Carlos Mendonça de Barros

Nos Estados Unidos o quadro de hoje também é o de uma reação muito frágil a todas as medidas tomadas

Os mercados financeiros voltaram a viver verdadeiro pânico nos últimos dias. Os indicadores de volatilidade dos principais ativos atingiram novas máximas, trazendo de volta os piores momentos vividos em julho de 2008 com a quebra do banco americano Lehman Brothers. Esse novo momento de pânico - iniciado com a divulgação do crescimento medíocre do Produto Interno Bruto (PIB) na primeira metade do ano - mostra que as tentativas de estabilizar a maior economia do mundo não conseguiram até agora afastar o fantasma da volta de uma recessão.

E se isso ocorrer, a Europa, que luta ainda sem muito sucesso para evitar uma desagregação econômica entre seus membros, também mergulhará na recessão. A sincronização no chamado G-7 de um novo período de fraqueza econômica certamente terá reflexos negativos na parte do mundo que cresce, criando as condições para uma recessão global. Esse quadro é que compõe o pano de fundo destes últimos momentos de pânico.

O rebaixamento da qualidade do crédito dos títulos públicos americanos pela agência Standard & Poor's (S&P), apontado por muitos como o ponto central por trás do colapso dos preços nos mercados, teve apenas uma importância secundária na crise dos mercados. A questão que assusta e divide o mercado hoje está relacionada ao cenário de crescimento econômico nos Estados Unidos nos próximos dois anos. É sobre isto que trago minhas reflexões ao leitor do Valor.

Em primeiro lugar registro minha profunda decepção pela volta de um crescimento abaixo do potencial nos Estados Unidos. Tinha a convicção de que as medidas fiscais e monetárias tomadas pelo governo Obama e pelo Federal Reserve (Fed, banco central americano), ao longo do ano de 2010, estavam corretas e que seria uma questão de tempo para que a economia se recuperasse. Os números do PIB divulgados recentemente mostram que eu estava errado. E não foram problemas pontuais, como o aumento dos preços do petróleo por conta da guerra civil na Líbia e o terremoto no Japão, as causas principais desse erro.

São questões estruturais, como a pouca funcionalidade do mercado de crédito bancário - mesmo depois de todo o apoio recebido no Troubled Asset Relief Program (Tarp) - e a fraqueza do mercado imobiliário mesmo depois de quedas expressivas de preços, que explicam esse fato. Também as pequenas e médias empresas que representam parcela importante do tecido produtivo americano não recuperaram sua dinâmica anterior à crise de 2008. Acompanhado por pesquisa abrangente de uma associação do setor, o quadro de hoje também é o de uma reação muito frágil a todas as medidas tomadas.

Por tudo isto é que não há outra alternativa senão uma nova rodada de estímulos fiscais - maiores gastos e menos impostos - para tentar recolocar a economia em uma rota moderada de crescimento. Mas esse caminho só poderá ser trilhado em conjunto com uma proposta de ajuste fiscal de longo prazo e que mostre uma estabilização da relação dívida/PIB. Sem essa garantia, qualquer movimento do governo na direção de mais estímulos fiscais vai levar as outras duas agências de risco - e que mantiveram a nota AAA para a dívida americana - a acompanhar a S&P e provocar um terremoto financeiro no mundo todo.

Com o legislativo americano dividido entre uma Câmara de Representantes controlada pelo Partido Republicano e um Senado nas mãos dos democratas, no momento em que já se vive o clima das eleições presidenciais do próximo ano, um programa fiscal da complexidade exigida por este momento parece um sonho impossível. Será preciso que a comissão especial criada nas duas casas legislativas inicie seus trabalhos para podermos avaliar o grau de cooperação política depois do vexame da questão do limite de endividamento do governo.

Sem a ajuda da política fiscal, a responsabilidade por manter um mínimo de estímulo à economia vai ficar por conta do Fed e de algumas forças anticíclicas de mercado. O banco central americano já deu uma contribuição importante ao se comprometer a manter os juros próximos de zero nos próximos dois anos. Com essa medida o Fed garantiu que o crédito às empresas e ao consumidor continuará barato por um longo período. Mas não depende dele a outra condição - crédito farto - para que uma economia de mercado se recupere de um período de baixo crescimento. Como o sistema bancário continua seu processo de enxugamento, a eficácia dessa medida será muito baixa no futuro. Mas é o que está hoje ao alcance da autoridade monetária.

Com a ameaça de uma nova fase recessiva, os preços de vários produtos primários - o petróleo é o mais importante - tiveram quedas fortes, aliviando a questão da inflação no mundo emergente principalmente. No caso do petróleo, a queda dos preços nos EUA equivale para os consumidores a uma redução de impostos pois aumenta a renda disponível para o consumo de outros produtos.

Esses dois movimentos - manutenção dos juros baixos por dois anos e a queda dos preços de commodities- representam forças que têm um efeito positivo para a expansão da demanda no futuro próximo. Confesso que não sou otimista em relação a isso.

Luiz Carlos Mendonça de Barros, engenheiro e economista, é diretor-estrategista da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações. Escreve mensalmente às segundas-feiras.